Transformação do Turismo em Santana do Livramento
Santana do Livramento, localizada na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, está passando por uma significativa transformação em seu setor turístico. Historicamente conhecida pelo comércio nos free shops de Rivera, a cidade agora busca se estabelecer como um destino de experiências, com um aumento notável no fluxo de visitantes e uma diversificação de suas ofertas turísticas. O impacto dessa mudança já é sentido na economia local.
Desde 2024, com a inauguração do Trem do Pampa, o turismo na região ganhou um novo impulso, embora essa evolução tenha raízes mais profundas, ligadas ao crescimento das vinícolas, da gastronomia e atividades que exploram o bioma Pampa. Vera Reis, da agência Corticeiras, que atua na região há 21 anos, pontua: “A gente evoluiu muito. Sempre teve vinícolas e atrativos, mas não eram divulgados. Hoje estamos numa vitrine que não existia.”
Aumento no Fluxo de Visitantes
Os números refletem essa transformação. Segundo operadores do setor, o volume de visitantes cresceu consideravelmente após a chegada do trem e de novos produtos turísticos. Vera observa: “Antes, nos finais de semana, tínhamos grupos grandes de 25 pessoas. Hoje, isso mudou, com três ou quatro grupos acontecendo simultaneamente.”
A Vinícola Almadén, um dos principais pontos turísticos da localidade, é um dos exemplos desse crescimento. De aproximadamente 80 visitantes mensais, a vinícola agora atrai cerca de 1,2 mil pessoas por fim de semana, de acordo com dados da Giordani Turismo. Cristiane Tomazini, gerente de marketing da empresa, comenta: “É um salto muito grande. Isso movimenta toda a economia, porque essas pessoas vão consumir na cidade.”
Um Novo Perfil de Turista
O turismo em Santana do Livramento está se redefinindo, não apenas pelo aumento do número de visitantes, mas pela mudança no perfil desses turistas. O turismo de compras, antes predominante, agora é complementado por visitantes em busca de experiências culturais, históricas e produtivas. Adriana Munhoz, coordenadora do Trem do Pampa, explica: “O trem trouxe um turismo completamente diferente. Não é mais o visitante que vem apenas para comprar e ir embora, mas alguém que quer conhecer a história, a cultura e a produção local.”
Esse novo público tende a permanecer por mais tempo na cidade, o que amplifica o impacto econômico. Já existem demandas por roteiros que variam de três a cinco dias, abrangendo não apenas Livramento, mas também o Uruguai e outras áreas do Pampa. Vera destaca: “Atendemos muitos turistas de fora, como mineiros, paulistas e cariocas que vêm para ficar vários dias.”
Desafios do Crescimento Turístico
Entretanto, o crescimento do turismo traz desafios. A estrutura local já começa a sentir a pressão desse aumento de demanda, levando à necessidade de ampliar equipes, contratar mais guias e reorganizar serviços. Vera observa: “Mudou tudo. Precisamos de mais profissionais, mais transporte e mais organização. A cidade inteira sente esse impacto.”
A ocupação hoteleira também reflete esse crescimento. Durante períodos de alta demanda, as reservas se esgotam rapidamente. “Em fevereiro, já não havia mais vagas para grandes grupos em setembro. Isso mostra que falta estrutura para crescer mais”, complementa Vera.
Além disso, eventos especiais ressaltam as limitações. Aos fins de semana com programação intensa, os visitantes enfrentam dificuldades para encontrar hospedagem na área central. A variação cambial é outro fator que promove o fluxo de uruguaios em busca de compras no Brasil.
Desafios Estruturais e Perspectivas Futuras
Embora Santana do Livramento esteja avançando, o setor turístico ainda enfrenta gargalos. A infraestrutura urbana, historicamente voltada para o turismo de passagem, não acompanha o novo perfil dos visitantes. A rede hoteleira precisa se adaptar para atender ao público mais exigente. Vera menciona: “Atendemos bem o volume, mas precisamos melhorar o padrão. Já existe um público mais exigente.”
As opções gastronômicas também se mostram limitadas, especialmente para atender a grupos grandes. “Já levamos dois grupos de 40 pessoas para o mesmo restaurante, e isso impacta no atendimento. Falta estrutura para esse tipo de operação”, argumenta.
A escassez de mão de obra qualificada, incluindo guias turísticos e profissionais capacitados, é outra questão; a demanda por treinamento nessa área está aumentando. Adriana destaca: “Não havia essa demanda antes. Agora, estamos começando a formar esse mercado.”
Construindo o Futuro do Turismo
Para a Giordani Turismo, que tem mais de três décadas de experiência no setor e desenvolve o projeto do Trem do Pampa há cerca de 14 anos, Santana do Livramento vive um momento semelhante ao que a Serra Gaúcha enfrentou no passado. Cristiane afirma: “O Vale dos Vinhedos também passou por isso há 30 anos. Hoje, vemos um potencial semelhante aqui.”
A estratégia é posicionar a região como um destino que valoriza a contemplação e a desaceleração, explorando a rica paisagem e a identidade cultural local. “É um turismo que valoriza a paisagem, o tempo e a experiência. Isso conversa muito com o momento atual”, explica.
Apesar do crescimento, o turismo receptivo ainda representa uma pequena parcela das operações. “Ainda está engatinhando. Mas é uma grande aposta”, garante Cristiane. A ampliação do tempo de permanência dos visitantes depende da criação de novos produtos turísticos. Além do trem, o destino já oferece city tours, roteiros enoturísticos, experiências gastronômicas e atividades ligadas à produção local, como azeites e queijos. “Dificilmente alguém viaja para fazer apenas um atração. O desafio é mostrar que aqui há muitas opções”, conclui Cristiane.
Vera finaliza: “Quem vem uma vez, volta e quer algo diferente. Isso exige que a cidade esteja sempre criando novas experiências.” O desafio agora é solidificar a nova imagem do destino. “Precisamos mostrar para as pessoas por que escolher Livramento na próxima viagem”, alerta Cristiane. “Estamos apenas começando, mas nunca se falou tanto em turismo aqui como agora”, resume Vera.


