Uma Nova Abordagem para a Educação Financeira
A educação financeira nas escolas brasileiras pode estar prestes a ganhar um recurso inovador e fundamentado academicamente. Defendida na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, a tese de Patrícia de Oliveira Garcia introduz o Krystalion, um jogo de tabuleiro que transforma a lógica contábil em estratégia de sobrevivência. Este projeto aparece em um momento crucial, antecipando a obrigatoriedade de abordar temas de educação financeira e fiscal no Novo Ensino Médio, que deve ser implementada até 2027. Patrícia afirma que o aprendizado de conceitos complexos como investimento, crédito e gestão de recursos é potencializado pela interação social e pela prática concreta, inspirando-se nas teorias de Piaget e Vygotsky.
O grande diferencial do Krystalion é a sua capacidade de humanizar as ciências contábeis, trazendo-as para a realidade cotidiana de crianças e adolescentes. No jogo, os participantes assumem os papéis de sobreviventes em um planeta que depende da energia de cristais, precisando gerenciar esses recursos de maneira sustentável para garantir a sobrevivência do ecossistema. Mais do que ensinar a poupança, a dinâmica do jogo promove valores como democracia e responsabilidade ambiental.
Impacto na Aprendizagem
Embora a pesquisa não tenha obtido melhorias imediatas nas habilidades matemáticas dos alunos, a análise qualitativa revelou uma taxa de aprovação de 98,5% entre os participantes. “Os alunos relataram uma compreensão intuitiva sobre o fluxo de dinheiro e a importância do investimento, percebendo que depender apenas do dinheiro do trabalho dificulta um crescimento financeiro saudável”, explica Patrícia. Ela ainda compartilha que a percepção da complexidade do crescimento financeiro foi resumida de maneira emblemática por uma estudante, que afirmou que “a vida não é um morango”.
A pesquisadora destaca que frequentemente se deparava com dados alarmantes sobre o endividamento e o uso inadequado de crédito, evidenciando a carência de educação financeira. Segundo ela, essa lacuna não se limita à gestão do dinheiro pessoal, mas também dificulta a compreensão crítica de notícias e informações sobre finanças, juros e tributos, resultando na falta de conceitos básicos que permitam entender esses conteúdos.
Fundamentação Teórica
Com isso, a pesquisadora decidiu utilizar o conhecimento contábil para criar uma base conceitual sólida para a educação financeira, que pode ser aplicada em qualquer programa da área. Para sua pesquisa, ela optou por focar em um público-alvo específico, dada a crescente demanda por incluir a educação financeira na educação básica e a falta de ferramentas voltadas a este segmento, concentrando seus esforços em crianças e adolescentes.
A Ludicidade como Ferramenta de Ensino
Entretanto, ao trabalhar com esse público, ficou claro que não bastava desenvolver apostilas ou livros teóricos abordando débito, crédito, ativo, passivo e patrimônio líquido. Era necessário levar a teoria para o universo infantojuvenil, e a conexão se deu através do jogo de tabuleiro. A ludicidade e a possibilidade de implementar narrativas e mecânicas interativas permitem que os jogadores tomem decisões, percebam seus impactos e internalizem os conceitos presentes em suas ações. Para fundamentar essa abordagem, Patrícia recorreu a renomados autores das teorias da aprendizagem, como Piaget e Vygotsky.
Como crianças e adolescentes ainda não lidam diretamente com gestão financeira, o Krystalion oferece uma forma concreta de simular essa experiência, ajudando-os a entender as consequências de suas escolhas. O jogo foi desenvolvido com uma forte base teórica — Lógica Contábil de Origem e Aplicação de Recursos — estruturada com princípios de game design e entretenimento, apresentando uma alternativa ao mundo digital, cuja influência excessiva é um desafio relevante para essa faixa etária.
A Narrativa e o Impacto Social
A narrativa do jogo se passa em um futuro distante, onde os habitantes do planeta Caza, após esgotarem seus recursos devido à exploração desenfreada, buscam um novo lar. Eles encontram abrigo em Krystalion, um mundo mágico sustentado por cristais. Nele, os jogadores devem extrair cristais da montanha central para atender às suas necessidades e acumular pontos de vitória, mas sem repetir os erros do passado: apenas ao preservar o equilíbrio de Krystalion é que se garante energia infinita para todos.
Diferente de um simples jogo educativo, Krystalion permite que os jogadores atuem ativamente, tomando decisões sobre gestão de recursos, investimentos e as trocas entre gastar e poupar. O jogo aborda temas relevantes como juros, aposentadoria, inflação e sustentabilidade — conceitos que, vivenciados no jogo, tornam-se mais acessíveis e concretos para os jovens.
Próximos Passos e Visão Futuro
A pesquisa da doutoranda foi amplamente respeitada e indicada para o prêmio de Tese Destaque, em razão de seu potencial inovador e impacto social. “Em um país com altos índices de endividamento familiar, o jogo se apresenta como uma tecnologia educacional preventiva”, afirma Patrícia. Embora o Krystalion ainda não esteja disponível comercialmente, o projeto busca parcerias com o setor privado, como editoras e instituições educacionais, e está em diálogo com Secretarias de Educação para viabilizar sua distribuição na rede pública. O objetivo final é transformar o protótipo acadêmico em uma ferramenta acessível que una rigor científico e o prazer de brincar.


